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segunda-feira, novembro 27, 2017

Rosa Azevedo apresentou em texto nova editora e novo livro

Lançamento do livro É no peito a chuva, de Gonçalo Naves, e da A das Artes Editora.
Texto da apresentação de Rosa Azevedo, a quem agradecemos a generosidade:
É no peito a chuva
Gonçalo Naves
Editora A das Artes
Foi com grande alegria que recebi o convite da A das Artes para escrever este texto sobre o novo livro do Gonçalo Naves, É no peito a chuva. A vida que eu mais gosto é aquela que se constrói num cruzamento de boas coincidências e encontros. Conheci a A das Artes no II Encontro Livreiro, em Setúbal, no dia em que conheci o Joaquim e a Dina, e desse encontro nasceram muitas ramificações, muitas ideias partilhadas, muitas angústias, muitas lutas por uma ideia tão óbvia de que livros se vendem em livrarias e que se editam com editores. Uma luta que parecendo não ser agora para aqui chamada é-o em absoluto, uma vez que o livro do Gonçalo nasce exactamente dessa luta sem a qual, possivelmente, o Joaquim e a Dina há muito tinham desistido de fazer aquilo que sabem fazer tão bem e merecem continuar a fazer.
Editar um livro vem muito depois do pessimismo que possa ter atravessado a vida destes dois livreiros. Já vem numa altura em que a convicção deles se tornou maior e perceberam que este novo passo para a criação desta editora era um passo essencial. Durante muito tempo, e ainda hoje, lutam por um negócio complexo, assombrado por gigantes financeiros, por concorrência absolutamente desleal, por um público nem sempre bem informado. Editar um livro vem depois de já estar ultrapassado esse pessimismo e de terem percebido que havia no mercado (uso esta expressão que é a pior que podia usar, na falta de melhor por agora) livros que fossem aquilo que queriam ser sem que por trás tivessem uma história literária forte, um texto assimilável, um nome conhecido, uma capa fluorescente ou outros atractivos dentro do próprio texto. E o texto do Gonçalo Naves é o oposto do que acabei de descrever. O Gonçalo não é uma figura mediática, publicou um livro em edição de autor, e, mais do que tudo isto, escreveu um texto arriscadíssimo, um salto no escuro. Um texto que qualquer grande editor de um primeiro texto provavelmente pediria para guardar na gaveta mais uns tempos. O Gonçalo escreveu um texto que é um tributo e uma releitura da língua portuguesa. Ele não inventa palavras, não prega rasteiras à gramática, não reinventa a língua. Antes, usa-a com mestria, tentando perceber até onde a língua portuguesa consegue chegar.
O livro viaja num universo próprio, tão indecifrável como o próprio ritmo do pensamento. O livro transita entre personagens que habitam realidades e espaços intuitivos muito diferentes, quase intransponíveis. A linguagem acompanha um jogo de espelhos que é simultaneamente a marca das diferentes faces da realidade mas também das diferentes visões que cada um deles tem dessa mesma realidade. Assim o livro apresenta-nos uma realidade fragmentária não necessariamente ao nível do texto mas sim ao nível da ficção, do que descreve e do que nos revela.
Assim, o que aqui temos é um exercício de linguagem e a literatura é também isto, um manusear palavras fazendo com que delas saia uma história, um enredo, um sentido poético. A literatura não se constrói em conteúdos, constrói-se na linguagem. Este é um segredo guardado por todos os grandes escritores e o Gonçalo passou por eles. Não é difícil perceber nestas linhas que o Gonçalo é um escritor-leitor, exigente, que antes de se lançar na escrita pensou a escrita, pensou que caminho ia fazer. Pode até dar-se o caso de ter pensado demais, é possível. O livro está escrito com esse pensamento e trabalho marcado nas palavras. Mas não é um problema, porque assim posso afirmar que o Gonçalo está num caminho certo, de um escritor que lê e trabalha. E ao contrário do que muitos escritores defendem, o talento também se alimenta, com trabalho. Tenho a certeza de que o resto do caminho será feito por si próprio, com a honestidade que este livro revela, com o talento que começa a despontar, sob a “asa” de dois livreiros corajosos, fortes, que têm na fé deste livro um motor fácil de engrenagem para um futuro que só pode ser brilhante para os três, porque assenta nos pilares certos. É disto que a literatura precisa.
Aos três o meu abraço e um desejo de vida literária longa, ao Gonçalo e à minha querida A das Artes, editora, livraria e tudo o mais que quiser ser.
Rosa Azevedo
25 de Novembro de 2017